O sentido da busca

PARALELISMOS ENTRE GILGAMESH E SR. JOSE

Por Débora Lúcio

Texto publicado originalmente na revista PUCATHENA – Número 1 – Ago/out 2004

 

Gilgamesh é a história mais antiga da humanidade

Ao olharmos para a história da humanidade, com suas modificações temporais, deparamo-nos com um questionamento o qual nos intriga, de forma profunda: “qual é o sentido da busca?” Ao tentarmos responder tal questão, vem-nos outras , que muito mais nos revelam a dúvida sobre o seu verdadeiro sentido: “O que desencadeia a necessidade de uma busca ?” “ Ela tem como objetivo específico o seu derradeiro final?” Deste modo, torna-se importante tecer uma breve investigação e expor nas linhas abaixo inferências para entender o tema aqui proposto.

De início, sistematizando conceitos, hipoteticamente afirmamos que a ciência física nos diz que o tempo não existe para o Universo. O tempo, na realidade, é um subterfúgio humano para organizar seus fatos e eventos; o tempo é apenas uma quantificação quase que biológica. Assim, percebemos como o tempo parece ser uma partícula inalterada desde o início do Universo, podemos notar que a questão da busca se mantém atual desde os primórdios. O homem, no transcurso de sua história, sempre teve nas suas ações uma busca para a realização pessoal e como resultado vemos quantas descobertas existem e quantas poderão existir pela ação da busca.

Também, atualmente, vemos sob outro ângulo, o nosso universo perambula por outros caminhos, nos quais tudo é relativo. Temos a energia dependendo da massa e de velocidades extremas como a da luz e, desse modo, vemos que o tempo é relativo assim como o espaço que o permeia. Então, tomamos a liberdade de dizer que o tempo pode andar mais depressa ou mais devagar e, nesse ritmo, temos a possibilidade de caminhar para um futuro. Assim, concluímos que não há paradoxos entre o passado e o presente.

Para aprofundarmos tais questões, nada melhor que nos ampararmos na palavra. É na concepção textual como registro histórico e representativo da humanidade que a diferença temporal e a questão da busca podem ser presenciadas. É no universo narrativo que diferentes textos expõem variações (por exemplo: variação estética). Assim como o conceito do tempo até os dias atuais, tudo pode ser considerado relativo ou invariável.

Ao traçarmos paralelos entre narrativas de diferentes épocas, podemos analisar e demonstrar a constância e a relatividade temporal e ao mesmo tempo, podemos perceber o sentido da busca como tentativa de resposta às questões abordadas no início deste estudo.

Em Gilgamesh, uma das primeiras epopeias da humanidade, escrita pelos sumérios no terceiro milênio antes de Cristo e no romance contemporâneo “Todos os Nomes” de José Saramago. Temos em ambas narrativas o exemplo real do sentido invariável da busca.

José Saramago

No âmbito discursivo, a própria concepção textual constrói as personagens. No passado, no texto de gênero épico, temos a sacralização de um herói mítico Gilgamesh, tendo em sua composição 2/3 parte divina e 1/3 parte humana, sendo reconhecido pela sua origem divina e pelos feitos, tendo o legado o reino Uruk. No presente, no texto de gênero romanesco contemporâneo, temos o Sr. José, nome que retrata a representação de uma pessoa comum, um ser sem qualidades especiais, sem realizações extraordinárias. Ele é o ser transformado, dessacralizado, um subalterno por excelência. Importa-nos demonstrar que no decorrer das jornadas de suas histórias, as personagens deparam-se com a necessidade da busca em direção ao desconhecido.

Gilgamesh, que é rei, construtor, tirano despótico e herói, é constantemente desafiado pelos deuses, estes enviam feras para tirar-lhe a vida, mas eles sempre têm seus planos frustrados pelas habilidades de Gilgamesh, porque em meio de tantas lutas, Gilgamesh consegue vencer todos os desafios que lhe são impostos. Porém, o Sr. José, personagem solitário, é identificado pela sua fragilidade e pelas suas perturbações pessoais, tem pânico das alturas, tem um aparente desequilíbrio nervoso e ainda vertigens e insônia. Ele é um ser anónimo que se vê primeiramente desafiado pelas suas limitações.

Ambas personagens correm em direção a uma realização pessoal. Entre eles há uma busca, razão para a existência de suas histórias.

Na sua condição de mortal, Gilgamesh percebe que todo mortal não consegue escapar da morte, deste modo, ele parte buscando o segredo da imortalidade. Ele, como semideus, não conseguia resgatar o seu amigo da morte. Na sua caminhada, Gilgamesh encontra um sábio Ut-Napishtim, possuidor do segredo da imortalidade e o único sobrevivente de um dilúvio babilônico. Ut-Napishtim explica onde conseguir a planta que é capaz de dar a juventude eterna. No percurso de volta a Uruk, Gisgamesh adormece e uma serpente lhe rouba a tão preciosa planta. Gilgamesh chora a perda da única chance de tornar-se um herói por excelência (um deus). A sua busca parece ter sido em vão.

Do ponto de vista discursivo, no romance Todos os Nomes, Sr. José configura-se um herói as avessas, construído ao longo da narrativa. De início, podemos verificar tamanha é a sua insignificância, talvez isso se justifique seu próprio nome inexpressivo, também não sabemos nada sobre seu passado ou vida familiar . Sr. José, nas suas raras horas de folga, tem como única distração colecionar notícias a respeito de celebridades. Um dia, escarafunchando nos documentos dessas celebridades, cai-lhe nas mãos, por acaso, a certidão de nascimento de uma mulher desconhecida. A partir de então, nada passa a ser como antes, o Sr. José perde totalmente o interesse por suas celebridades e começa a investigar a vida da mulher desconhecida. Na sua incessante busca detetivesca, Sr. José encontra dificuldades e empecilhos de toda ordem, que o leva a faltar no serviço, enganar os outros, a falsificar documentos, a mentir para assim extrair informações, chega até invadir uma escola durante a noite atrás de boletins escolares da mulher desconhecida. Porém Sr. José se transforma no percurso de suas ações, pois com muito custo, vence suas limitações para se aproximar da mulher desconhecida. Mas de forma clandestina, descobre que ela foi uma professora divorciada e que se suicidou. Mas apesar de estar morta, Sr. José continuou sua busca perambulando entre os caminhos dos vivos e dos mortos a procura de mais informações e documentos da mulher desconhecida. Sr. José continuou suas investigações apenas pelo gozo da busca em si.

Traçando um paralelo entre a história que representa o passado e a que representa o presente, vemos algo em comum: tanto Gilgamesh com suas ações heroicas quanto Sr. José na sua insistência, não atingem ao objetivo da busca. Então, qual foi o verdadeiro sentido de suas buscas? Nenhum?

Podemos, portanto, inferir que na representação mítica de sua história, na saga de busca, Gilgamesh conseguiu muito mais que a imortalidade, pois ele passou a ser lembrado por toda a eternidade, a sua história foi gravada em tabuleiros de pedra – a palavra resiste ao tempo. Semelhantemente, na narrativa contemporânea, na história de busca do Sr. José (longe de ser um herói) revela-nos o exemplo de representação estética do mundo moderno na insignificância do homem. Em Todos os Nomes, a palavra desconstrói o ser e o reconstrói simbolicamente trazendo infinitas interpretações.

Por meio destas narrativas, vemos que a busca é um ato de superação constante, é o encontro com o desconhecido, ou melhor, é o encontro com o conhecimento. A ação de um movimento é capaz de trazer uma nova visão de mundo para o ser. Nesse sentido, é por meio da busca que o ser pode obter constantes mudanças. O sentido da busca não está na realização dela, mas na transição ou na passagem. É o conhecimento que se pode obter por meio da experiência vivida e sentida no movimento da busca.

O caminho a ser percorrido, metaforicamente, sugere tanto uma origem como um destino: ao longo desse caminho, o homem pode adquirir o conhecimento da realidade, o conhecimento de si mesmo e do outro. A busca por um sentido deveria ser a motivação primária e não uma “racionalização” de impulsos instintivos. Cada ser humano é singular. Cada um deve, por si, caminhar para descobrir qual é a sua vocação e missão. A necessidade da busca para obtenção de uma meta deveria ser um processo natural e espontâneo da auto-realização e plenitude.

Para terminar o nosso estudo, nada melhor que apresentarmos o pensamento moderno de Heidegger: “Existir é encontrar-se no mundo, pois o homem como ser finito, passa residir na sua própria essência. Mas, pelas próprias limitações de encontrar-se no mundo e no tempo, o homem experimenta a impossibilidade de realizar-se plenamente, a não ser a morte. Existir, portanto, é viver para a morte. Devemos ser autênticos para compreender a significação da existência. Se não soubermos ser autênticos e compreender nossa existência, seremos levados ao nada. E o nada leva a angustia.”

 


Bibliografia

ANONIMO – “A epopéia de Gilgamesh” . São Paulo: 2a. edição – Martins Fontes, 2001

PARISI, Mário. & CONTRIN, Gilberto – “Trabalho dirigido de Filosofia” . São Paulo: 8 edição – Saraiva, 1984

SARAMAGO, José – “Todos os Nomes”. São Paulo: Companhia da Letras, 1997


 

Autora: Débora Lúcio

Mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUCSP, Bacharel em Pedagogia e professora de Língua Portuguesa e Literatura

 

 

 

 

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